(Dominguinhos/Gilberto Gil)
Por ser de lá do Sertão
Lá do cerrado
Lá do interior, do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver
Contrariado.
(...)
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão, boiada
Caminhando a esmo.
Certa vez, consegui ler uma frase de caminhão, por entre a poeira que ele levantava: "sou do tamanho que vejo e não do tamanho da minha altura". Carái... intão eu posso ser do tamãnhi dessa poeira que me cega, até as estrela que'u nunca vi... eu posso ser do tamãnhi do infinito... do tamãnhi que'u quiser...
O que só tenho percebido agora é que isso leva tempo, pois envolve duas questões: a primeira, eu preciso saber o que eu vejo (ora pois, sabemos que ver é diferente de enxergar, e que nem tudo que reluz é ouro). Em seguida, de que tamanho eu quero ser.
Talvez eu não tenha tempo para perder pensando nisso... talvez pensar nisso seja ganhar tempo... o que para muitos é difícil de entender é que tempo, para mim, é fundamental e questão de ordem.
Para quem viveu tão pouco e se privou de tanto, cada segundo perdido é, de fato, um segundo perdido... é a certeza que há tantos segundos lá fora, esperando para serem perdidos, e eu perdendo segundos... minutos... horas... aqui dentro. Espero que uma dia chegue a conclusão que a preocupação com o tempo é imaturidade, ou foi imaturidade.
Viver a vida não é o bastante pra mim. Isso é o que eu faço todo dia. Eu quero tocar a vida, quero abraçá-la, quero prová-la com minúncia, sentindo as nuances do seu sabor nas diferentes regiões da minha língua. Para depois vê-la por inteiro e por fim niná-la.


